Aquicultura: o setor que já produz mais que a pesca no mundo

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Aquicultura: o setor que já produz mais que a pesca no mundo

Um panorama completo sobre produção aquícola, sustentabilidade e o papel do engenheiro de pesca no futuro dos alimentos

Por Maria Raíssa Alencar Bezerra, graduanda em Ciências Biológicas – UFRPE-UAST

A aquicultura é a produção de organismos aquáticos (peixes, crustáceos, moluscos, algas, rãs) em ambientes totalmente controlados, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2024), a aquicultura pela primeira vez ultrapassou a pesca, com 94,4 milhões de toneladas contra 91 milhões de toneladas da pesca extrativista, um marco histórico e que tem previsões de crescer ainda mais até 2050, podendo chegar a 10 bilhões. O crescimento desse segmento se deve à necessidade de atender a demanda de toda a população mundial por uma proteína animal barata e nutritiva, além de aliviar os estoques pesqueiros. Atualmente, mais da metade do pescado animal vem da aquicultura e não da pesca extrativista (FAO, 2024).

 

 

(Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial).

A Pesca e a Aquicultura parece ser a mesma coisa, mas não é. De forma bem simples de entender, pesca é caçar e a aquicultura é criar. Pensar em pesca é pensar em organismos aquáticos que vivem na natureza em rios, oceanos, lagos sem um controle exato por parte do ser humano. Tudo começou pela pesca artesanal, geralmente feita por ribeirinhos e comunidades indígenas para a sua sobrevivência, e depois, deu início à pesca industrial, com grandes barcos nos oceanos para captura de milhares de peixes. Segundo a FAO (2024), cerca de 35% dos estoques pesqueiros mundiais estão sendo explorados além da sua capacidade de recuperação, ou seja: estamos pescando mais rápido do que a natureza consegue repor. Já na aquicultura, o ser humano consegue controlar fatores importantes: como o ambiente de criação, a alimentação, a reprodução e a saúde dos animais, tornando possível a produção o ano todo, independentemente das estações anuais. A pesca enfrenta riscos climáticos e a aquicultura permite um planejamento e constância na produção. O ideal é que as duas se complementem e desenvolvam de forma responsável.

 

 

Dentre as atividades de criação de organismos aquáticos destacamos a criação de peixes, piscicultura, e a criação de crustáceos, em especial a de camarões, a carcinicultura. O setor da piscicultura nacional vem batendo recordes sucessivos, ultrapassando recentemente a marca histórica de 1 milhão de toneladas produzidas (PEIXE BR, 2026). No Brasil, a Tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) é a espécie mais cultivada, o que torna o país o quarto maior produtor mundial. Além da Tilápia, há também a criação de outras espécies de peixe, como o Tambaqui e o Pirarucu (na região da Amazônia), Pacu (no Centro-Oeste) e o Surubim (Nordeste), este último ainda é uma espécie em desenvolvimento produtivo (FAO, 2024).

 

 

A Tilápia é um peixe exótico, ou seja, ele foi introduzido no país, e que possui uma alta resistência, um crescimento bastante rápido e tem um sabor delicioso (KUBITZA, 2011). Essa espécie é produzida nos seguintes sistemas de criação: tanques escavados, são os mais usados, eles são cavados na terra; tanques-rede: que são gaiolas flutuantes instaladas em reservatórios e represas; RAS (Sistema de Recirculação Aquícola): tecnologia de ponta que reutiliza até 99% da água e BFT: (Tecnologia de Bioflocos) é uma tecnologia sustentável superintensiva que utiliza bactérias para reciclar resíduos nitrogenados em proteína, reduzindo ou eliminando a troca de água. O manejo inclui monitoramento das variáveis de qualidade da água (temperatura, oxigênio dissolvido, pH), controle de doenças e biometrias (pesagem dos peixes) constantes, que têm impacto direto na alimentação dos animais (PeixeBR, 2024).

 

 

Fonte: Exemplar de Tilápia Vermelha. Foto: Maria Raíssa Alencar Bezerra. Registro feito no Laboratório de Experimentação com Organismos Aquáticos (LEOA) da UFRPE/UAST, em 29 de outubro de 2025.

A carcinicultura, vem do grego karkinos (crustáceo) + cultura (cultivo), que consiste na criação de crustáceos. Um dos frutos do mar mais consumidos no Brasil com certeza é o camarão. No país, a principal espécie cultivada de camarão de água salgada é o Penaeus vannamei (popularmente conhecido como camarão branco do Pacífico), com origem no Oceano Pacífico, mas adaptado totalmente ao clima do Brasil. A espécie de água doce mais cultivada no nosso país é o Macrobrachium rosenbergii, popularmente conhecido como camarão-da-malásia, bastante cultivada em viveiros ou em policultivos (cultivo de diferentes espécies no mesmo ambiente). A maior região produtora é a região Nordeste, tendo o Rio Grande do Norte e o Ceará como principais produtores por conta do clima quente, característico da região. O cultivo pode acontecer em viveiros escavados, BFT (Bioflocos), RAS (Recirculação) e tanques redes (gaiolas) (IBGE, 2025)

 

 

Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial.

A aquicultura é uma ciência que se baseia na sustentabilidade para a produção de organismos aquáticos, como dito anteriormente, por exemplo, se formos comparar a aquicultura com a agropecuária, enquanto na agropecuária, um boi precisa comer de 6 a 8 kg de ração/pasto para ganhar 1 kg de peso, a tilápia precisa de apenas 1,3 kg a 1,5 kg de ração para ganhar 1 kg de peso. Menos ração significa menos desmatamento (EMBRAPA 2013). A pecuária gasta uma infinidade maior de água, enquanto a aquicultura, no RAS, 99% da água é reutilizada. A produção aquícola pode ocupar áreas impróprias para a agricultura convencional. Fora que, a aquicultura não precisa ser em grandes áreas de terra para garantir proteína de alta qualidade, pode ser no muro da sua casa sendo o maior exemplo, a Aquaponia (sistema que integra o cultivo de organismos aquáticos e vegetais sem solo, onde a água do peixe irriga as hortaliças) e garantem que os pequenos produtores tenham comida na mesa e a soberania alimentar (CARNEIRO, 2015).

O Brasil abriga cerca de 13% de todas as espécies de peixes de água doce do mundo (VALLENTI, 2000). As principais espécies aquícolas cultivadas no Brasil são: Tilápia (Oreochromis niloticus, liderando com mais de 60% da produção nacional), Tambaqui (Colossoma macropomum), Pirarucu (Arapaima gigas): como representantes dulcícolas (água doce), o camarão P. vannamei como crustáceo marinho, as ostras e mexilhões representando os moluscos (com Santa Catarina sendo responsável por produzir 90%), de acordo com VALENTI (2000). Nossa biodiversidade é um campo de pesquisa gigante e você, Engenheiro de Pesca, pode atuar nessa área!

Historicamente, o homem sempre teve uma presença forte na agroindústria mundial, mas com o passar dos tempos e com a valorização da mulher, essa história vem mudando. No Brasil, cresce o número de mulheres liderando fazendas, atuando como cientistas e pesquisadoras de ponta, tomando a frente de secretarias, empreendendo etc. No âmbito acadêmico, a realidade já é bem animadora, cada vez mais pode-se observar a presença feminina em Universidades Federais Públicas, principalmente nos cursos de Engenharia de Pesca, Ciências Biológicas, Zootecnia, Biologia Marinha, Tecnólogo em Aquicultura. O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) vem implementando ações para valorização das pescadoras artesanais e aquicultoras em todo o país (BRASIL, 2024).

Se você é uma jovem que ama a natureza, o mar, os rios ou simplesmente quer trabalhar com ciência e sustentabilidade, saiba que a aquicultura é um campo aberto, crescente e que precisa de mais mulheres em posições de liderança, pesquisa e empreendedorismo.

Palavras-chave: Aquicultura, piscicultura, tilápia, pescado, pesca, sustentabilidade, carcinicultura, segurança, engenharia, bioflocos.

Referências utilizadas:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA PISCICULTURA (PEIXE BR). Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2024. São Paulo: Peixe BR, 2024. Disponível em: https://www.peixebr.com.br/anuario-2024/. Acesso em: 24 fev. 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA PISCICULTURA (PEIXE BR). Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026. 10. ed. São Paulo: Peixe BR, 2026. Disponível em: https://www.peixebr.com.br. Acesso em: 25 fev. 2026.

BRASIL. Ministério da Pesca e Aquicultura. Cartilha de fomento da pesca e aquicultura 2024/2025. Brasília: MPA, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mpa/pt-br/Central_Conteudos/CartilhaFomento_web.pdf. Acesso em: 24 fev. 2026.

CARNEIRO, P. C. F. et al. Produção integrada de peixes e vegetais em aquaponia. Aracaju: Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2015. 30 p. (Documentos, 189). Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/142630/1/Doc-189.pdf. Acesso em: 27 fev. 2026.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Métodos para medir a sustentabilidade na aquicultura. Palmas: Embrapa Pesca e Aquicultura, 2013. 32 p. (Documentos, 218). Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/115655/1/Doc218.pdf. Acesso em: 24 fev. 2026.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). The state of world fisheries and aquaculture 2024: blue transformation in action. Roma: FAO, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.4060/cd0683en. Acesso em: 22 fev. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (pecuária). Pesquisa da pecuária municipal 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/agricultura-e-pecuaria/9107-producao-da-pecuaria-municipal.html. Acesso em: 24 fev. 2026.

KUBITZA, F. Tilápia: tecnologia e planejamento na produção comercial. 2. ed. Jundiaí: Kubitza, 2011. 316 p.

VALENTI, W. C. et al. (Ed.). Aquicultura no Brasil: bases para um desenvolvimento sustentável. Brasília: CNPq/Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. 399 p.

VALENTI, W. C. et al. (Ed.). Aquicultura no Brasil: novas perspectivas. São Carlos: Pedro & João Editores, 2021.

 

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