O que é aquicultura e por que ela cresce tanto no mundo?

juliane

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O que é aquicultura e por que ela cresce tanto no mundo?

A aquicultura representa uma das transformações mais significativas nos sistemas de produção de alimentos das últimas décadas. Definida pela FAO como o cultivo de organismos aquáticos – incluindo peixes, moluscos, crustáceos e plantas aquáticas – esta atividade envolve alguma forma de intervenção no processo de criação para aumentar a produção, como estocagem regular, alimentação e proteção contra predadores (FAO, 2024).

 

O que é aquicultura?

 

Diferentemente da pesca de captura, onde organismos são coletados de seus habitats naturais, a aquicultura implica controle de pelo menos uma fase do ciclo de vida dos organismos cultivados. Este setor abrange diversas modalidades: piscicultura (cultivo de peixes), carcinicultura (camarões e crustáceos), malacocultura (moluscos como ostras e mexilhões) e algicultura (cultivo de algas).

 

Os sistemas de produção variam significativamente em intensidade e tecnologia. Sistemas extensivos utilizam baixa densidade e mínima intervenção humana, dependendo da produtividade natural do ambiente. Sistemas semi-intensivos incorporam suplementação alimentar e densidades moderadas. Já os sistemas intensivos dependem completamente de alimentação artificial, apresentam altas densidades e requerem tecnologias sofisticadas de aeração e filtração. Os sistemas super-intensivos de recirculação (RAS) representam a fronteira tecnológica, permitindo produção em ambientes completamente controlados, inclusive em áreas urbanas (DALSGAARD et al., 2013; TIMMONS; EBELING, 2013).

 

 

Imagem gerada por IA

Números impressionantes do crescimento global

De acordo com o mais recente relatório da FAO (2024), O Estado Mundial da Pesca e Aquicultura, a produção mundial de aquicultura alcançou um recorde histórico, mostrando que essa atividade ultrapassou a pesca de captura em importância produtiva. Em 2022 (último ano consolidado no relatório), a produção global total de aquicultura foi de 130,9 milhões de toneladas, representando cerca de 59 % da produção total de animais aquáticos no planeta.

 

A FAO destaca ainda que a aquicultura:

  • É responsável por grande parte da oferta de proteína animal de origem aquática;
  • Tem papel central na segurança alimentar global;
  • Atua como vetor de emprego e renda em muitas regiões.

 

Esse crescimento é um reflexo de demandas socioeconômicas: aumento da população mundial, mudanças nos padrões de consumo e necessidade de diversificação das fontes de alimento.

 

Aquicultura no Brasil: crescimento e recordes recentes

O Brasil, apesar de não ser um dos maiores produtores mundiais em volume, tem mostrado forte expansão em sua aquicultura nacional. Dados oficiais recentes do IBGE revelam recordes de produção aquícola no país em 2024:

  • A produção total de peixes cultivados chegou a 724,9 mil toneladas em 2024, um aumento de 10,3 % em relação a 2023.
  • A produção de camarão cultivado (carcinicultura) atingiu 146,8 mil toneladas, crescimento de 15,2 % frente ao ano anterior.
  • Juntos, peixe e camarão resultaram em valor de produção total de R$ 11,7 bilhões, com alta de 15,4 % em relação a 2023.

 

Esses números representam um recorde histórico para a aquicultura brasileira e mostram que a atividade está ganhando espaço na economia nacional.

 

📊 Regionalização e distribuição da produção

A aquicultura no Brasil apresenta características regionais bem marcantes:

  • A tilápia continua sendo a espécie predominante na piscicultura, representando cerca de 68,9 % da produção total de peixes no país em 2024.
  • O estado do Paraná lidera a produção nacional, respondendo por mais de 38 % da produção total de tilápia cultivada no país.
  • Já a carcinicultura brasileira concentra-se principalmente no Nordeste, especialmente nos estados de Ceará e Rio Grande do Norte, que juntos representam a maior parte da produção de camarões.

 

Esses dados mostram que diferentes regiões do Brasil têm potencial produtivo significativo e têm contribuído para a expansão da aquicultura nacional.

 

Por que a aquicultura cresce tanto?

Imagem gerada por IA

1. Atendimento à demanda por proteína de alta qualidade

O pescado — peixes e camarões — é rico em proteínas completas, vitaminas e minerais, e possui benefícios reconhecidos à saúde humana, como os ácidos graxos ômega-3. À medida que a população mundial cresce e as dietas se tornam mais diversificadas, a demanda por alimentos proteicos de qualidade também aumenta.

 

2. Eficiência produtiva e menor impacto ambiental

A aquicultura pode ser mais eficiente no uso de recursos do que a pecuária tradicional. Peixes convertem alimento em peso corporal de forma mais eficiente e, em sistemas bem manejados, podem reduzir os impactos ambientais associados à produção de proteína animal.

 

3. Tecnologias e inovação

A adoção de tecnologias (como sistemas de recirculação de água, monitoramento em tempo real, bioflocos e automação) tem tornado a aquicultura mais produtiva, com melhor uso de recursos e com menor dependência de ambientes naturais.

 

4. Geração de emprego, renda local e economia azul

A aquicultura movimenta uma cadeia de produtos e serviços: insumos, ração, genética, tecnologia, transporte, processamento e comercialização do pescado. Isso gera empregos e pode impulsionar economias locais, especialmente em regiões interioranas e no Nordeste brasileiro.

 

5. Políticas públicas e ordenamento institucional

No Brasil, programas de incentivo, regularização e concessões de uso de águas (como as cessões de uso em águas da União) estão consolidando espaços produtivos e dando segurança jurídica aos produtores, facilitando o acesso ao crédito rural e estimulando a formalização da produção aquícola.

 

Desafios e movimento para sustentabilidade

Apesar do crescimento, a aquicultura enfrenta desafios ambientais, sanitários e sociais. Impactos incluem conversão de habitats (destruição de manguezais), poluição por efluentes ricos em nutrientes, escapes de peixes cultivados, disseminação de doenças, e uso de peixes selvagens para produção de farinha e óleo de peixe em rações (NAYLOR et al., 2021; FAO, 2024).

 

Por outro lado, a própria atividade tem desenvolvido soluções, como alimentação alternativa (proteínas vegetais, insetos e microalgas), sistemas integrados (IMTA) e certificações ambientais.

 

Os sistemas IMTA (aquicultura multitrófica integrada) estão s eexpandindo globalmente, pois combinam espécies alimentadas com filtradores e algas, reciclando nutrientes e diminuindo os impactos ambientais da atividade promovendo a economia circular. Além disso, tecnologias offshore redirecionam a produção para águas mais profundas, diluindo impactos (CHOPIN et al., 2001; LEKANG et al., 2016).

Imagem gerada por IA. Desenho esquemático do Sistema de Aquicultura Multitrófica Integrada.

 

Sendo assim, a aquicultura é essencial para alimentar a humanidade no século XXI. Com produção superando 130 milhões de toneladas anuais e crescimento contínuo projetado, o setor fornece proteína acessível e nutritiva para bilhões de pessoas. Dados atualizados da FAO (2024) confirmam que a aquicultura agora fornece mais da metade de todo o pescado consumido globalmente. No Brasil, os dados recentes do IBGE demonstram trajetória ascendente consistente, com potencial para multiplicar a produção atual. O futuro dependerá da capacidade de equilibrar produção com conservação ambiental, inovar tecnologicamente, distribuir benefícios equitativamente e responder a demandas por sustentabilidade. O sucesso será medido não apenas em toneladas produzidas, mas em vidas nutridas, ecossistemas protegidos e comunidades fortalecidas.

 

Palavras-chave: aquicultura, piscicultura, produção de pescado, segurança alimentar, sustentabilidade aquícola, aquicultura mundial, criação de peixes.

 

Referências Bibliográficas

 
ASCHE, F.; BJØRNDAL, T. The Economics of Salmon Aquaculture. 2nd ed. Oxford: Wiley-Blackwell, 2011.

 

ASCHE, F.; SMITH, M. D. Trade in seafood with heterogeneous consumers. Journal of Agricultural and Resource Economics, v. 43, n. 2, p. 241-258, 2018.

 

BADIOLA, M. et al. Recirculating Aquaculture Systems (RAS) analysis: Main issues on management and future challenges. Aquacultural Engineering, v. 51, p. 26-35, 2012.

 

CHOPIN, T. et al. Integrating seaweeds into marine aquaculture systems: A key toward sustainability. Journal of Phycology, v. 37, n. 6, p. 975-986, 2001.

 

DALSGAARD, J. et al. Farming different species in RAS in Nordic countries: Current status and future perspectives. Aquacultural Engineering, v. 53, p. 2-13, 2013.

 

FAO. The State of World Fisheries and Aquaculture 2024. Blue Transformation in action. Rome: FAO, 2024. 236p. DOI: https://doi.org/10.4060/cd0683en

 

FØRE, M. et al. Precision fish farming: A new framework to improve production in aquaculture. Biosystems Engineering, v. 173, p. 176-193, 2018.

 

GJEDREM, T.; ROBINSON, N.; RYE, M. The importance of selective breeding in aquaculture to meet future demands for animal protein: A review. Aquaculture, v. 350-353, p. 117-129, 2012.

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa da Pecuária Municipal 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/agricultura-e-pecuaria/9107-producao-da-pecuaria-municipal.html

 

LEKANG, O. I. et al. Aquaculture Engineering. 2nd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2016.

 

MARTINS, C. I. M. et al. New developments in recirculating aquaculture systems in Europe: A perspective on environmental sustainability. Aquacultural Engineering, v. 43, n. 3, p. 83-93, 2010.

 

NAYLOR, R. L. et al. A 20-year retrospective review of global aquaculture. Nature, v. 591, n. 7851, p. 551-563, 2021.

 

ONU – Organização das Nações Unidas. World Population Prospects 2022. New York: United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division, 2022.

 

PAULY, D.; ZELLER, D. Catch reconstructions reveal that global marine fisheries catches are higher than reported and declining. Nature Communications, v. 7, 10244, 2016.

 

SOMMERSET, I. et al. Vaccines for fish in aquaculture. Expert Review of Vaccines, v. 4, n. 1, p. 89-101, 2005.

 

TACON, A. G. J.; METIAN, M. Feed matters: satisfying the feed demand of aquaculture. Reviews in Fisheries Science & Aquaculture, v. 23, n. 1, p. 1-10, 2015.

 

TIMMONS, M. B.; EBELING, J. M. Recirculating Aquaculture. 3rd ed. Ithaca: Cayuga Aqua Ventures, 2013.

 

VALENTI, W. C. et al. Aquaculture in Brazil: past, present and future. Aquaculture Reports, v. 19, 100592, 2021.

 

YU, H. et al. CRISPR/Cas9-mediated gene editing in aquaculture: Current status and future perspectives. Reviews in Aquaculture, v. 11, n. 4, p. 1151-1170, 2019.

 

YUAN, X. et al. Blue growth in China: A systematic literature review on marine economy. Ocean and Coastal Management, v. 219, 106041, 2022.

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